VAMOS REFLETIR SOBRE O JULGAMENTO?

Como em tudo na vida, somos únicos e a experiência de um, não deve ser comparada à experiência do outro. Mesmo que vivendo a mesma circunstância, somos seres com as suas particularidades.

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Leia ouvindo: R.E.M – Everybody Hurts

Eu trabalho como Health Coach Holística e, no início da quarentena, senti um chamado para oferecer sessões gratuitas com o intuito de ajudar mais pessoas a navegarem a incerteza e as angústias do isolamento, questões que também me acometiam e que eu estava aprendendo a lidar.

Foi a forma que encontrei de dar o que tinha e receber de volta um aprendizado que talvez eu nunca mais tivesse oportunidade de experienciar na minha história (assim espero, não é? Vamos combinar que uma pandemia por reencarnação chega e sobra!).

O que eu aprendi com quem me foi chegando nessas sessões gratuitas, é que a ansiedade vinha de diversas formas e ganhava diferentes contornos e dimensões. Como em tudo na vida, somos únicos e a experiência de um, não deve ser comparada à experiência do outro. Mesmo que vivendo a mesma circunstância, somos seres com as suas particularidades.

E se é verdade que, neste momento, partilhamos no coletivo alguns dos sentimentos, como a incerteza, o medo da finitude ou um mergulho (mais ou menos profundo) numa crise existencial, também é verdade que o lugar onde nos dói, durante o distanciamento social, é muito singular.

Fotografia: Juliana Martins

Quando me perguntam o que fazer para manter a sanidade na quarentena eu digo que não sei. Eu posso dar dicas e ferramentas. Eu até montei um ebook gratuito sobre o tema. Mas o que está lá, não é regra. Talvez ajude, talvez não. E está tudo bem.

Então, quando me perguntam o que fazer para manter a sanidade na quarentena eu digo mesmo que não sei. Digo que não sei porque tal como todas as outras pessoas, eu também estou a viver uma pandemia pela primeira vez. É algo inédito na minha vida. Eu não sei como me comportar. Eu não sei o que sentir. Eu estou aprendendo. Estamos todos aprendendo.

O que me dói, não é necessariamente o que lhe dói. E como eu lido com isso, não é necessariamente a forma como você lidaria.

E isso me leva a refletir sobre o julgamento excessivo que estamos promovendo diariamente entre nós. Falei um pouco sobre isso no meu último texto, mas trago o tema aqui de novo porque sinto que é necessário.

Quando que nos tornamos os fiscais do #fiqueemcasa? Quando que decidimos, enquanto sociedade, implementar a lei do cancelamento com critério rígido e, tantas vezes, sem olhar o contexto?

Por que será que me incomoda tanto aquele amigo que saiu de casa para tomar café com outro amigo, na segurança da sua casa, num contexto em que ambos estavam cumprindo o isolamento? Será que é porque isso espelha os meus desejos, aqueles que eu não sou capaz de colocar em prática com medo do julgamento alheio? E então, eu julgo o outro, como penso que eu seria julgado?

Eu sei que o tema é polêmico, mas acho que temos que olhar de frente para ele. Sobretudo agora, que estamos chegando em quase cinco meses de isolamento, tentando montar o quebra-cabeça desse tal “novo normal”.

Precisamos lembrar que o julgamento (seja sobre o que for) sempre diz muito mais sobre quem julga do que sobre quem é julgado. É difícil aceitarmos isso, mas quando o fazemos é libertador.

E se é verdade que a saúde mental é tão ou mais importante do que a saúde física em qualquer circunstância, em tempos de isolamento social como o que estamos vivendo, arrisco dizer que ela é primordial.

Os psicólogos são unânimes: a quarentena vai deixar rastro no emocional do ser humano. Vivemos a maior experiência psicológica jamais realizada. E os resultados ainda estão sendo apurados. Em qual estatística você vai entrar?

Então, será que não podemos parar um pouco, respirar fundo e olhar para nós e para os outros com um pouco mais de empatia?

Se você consegue cumprir o isolamento ao pormenor, que bom! Parabéns! Talvez as pessoas à sua volta possam beneficiar do seu aprendizado. Mas se um amigo precisa, com os devidos cuidados, se encontrar outra pessoa, será que deve ser apedrejado?

A verdade, é que nós não conhecemos as dores de todo mundo. Nós também não vemos os processos de cada um.

Entenda: isto não quer dizer que está liberado aglomeração. Que podemos encontrar todo mundo como antes. Mas quer dizer que precisamos, sim, olhar para nós e para o outro com esse olhar mais compassivo.

Afinal, a gente ainda só está aprendendo a lidar. E se dermos as mãos e aprendermos juntos?

Ju Martins
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