Você é minha amiga ou você é minha, amiga?

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Era uma vez, uma cidade muito bonita e um casal de amigos: João e Maria.

João estudou muito pra se formar e ter uma boa carreira. Maria, era uma moça que, embora dominasse as prendas domésticas – prática passada com carinho por sua mãe e avó – estava muito próxima da formatura.

Formavam um lindo casal e sempre faziam de tudo juntos. Iam pra faculdade sempre que os horários permitissem, almoçavam, assistiam os lançamentos do cinema, faziam compras e até se ajudavam na escolha de roupas. João tinha um porte atlético, falava muito bem e paparicava Maria. Ela, por sua vez, era um mignonzinho – pequena e saborosa – além de inteligentíssima, divertida e companheira. Com isso foi quase natural para que suas famílias se conhecessem e fizessem gosto por um futuro casamento.

João nunca admitiu que esse futuro o agradava e Maria jamais deu bola para as conversas de família, afinal, ele era recém formado e ela se formaria naquele final de ano. Tinham uma vida a construir antes de pensar em casamento e, de mais a mais, eram apenas amigos!

Maria estava às portas da formatura e precisaria de um belo vestido. João prontamente se propôs a ajudá-la, no que Maria gostou muito. E naquela tarde foram à melhor loja de vestidos de formatura da cidade. Ao chegarem na loja, começou a sessão de infinitas escolhas. Vestido após vestido, João se sentiu no próprio desfile de moda particular. Pôde ver cada escolha de Maria e de repente, PÁ! Bateu. Era aquele vestido. Parecia que tinha sido costurado no corpo de Maria. João ficou empolgadíssimo, pois estava vendo sua amiga com outros olhos. Maria estava realmente linda. Ela desfilou, mostrou, se exibiu e João gostou muito do que viu. Mas Maria não estava contente ainda, queria experimentar mais um, o último. E voltou ao provador, foi quando João escutou Maria pedindo sua ajuda para descer o zíper que havia enroscado. João prontamente foi em socorro da sua amiga (agora, deliciosa). O zíper desceu e seu queixo também: Maria tirou o vestido e ficou ali, apenas de lingerie olhando pra cara de João esperando ele passar o próximo vestido. Ele pegou e ela, sem se preocupar como estava (ou não) vestida, colocou o último modelo. Não era de zíper, eram botões. Maria fez um coque enrolado no próprio cabelo e ficou esperando que João abotoasse. João, meio tremendo, meio calmo, abotoou o primeiro. Bem na linha da cintura, no começo do cox. E foi pro segundo botão, dessa vez tirando uma casquinha, e o terceiro… demorou… e o quarto, quinto e Maria foi se aproximando, ficando colada a João. Quando terminou, a tensão do provador trincava paredes. Maria ficou de frente para João e perguntou o que ele achava. João, lógico, não tinha palavras. Ficaram próximos um do outro, quase colados pelo nariz, quando a mágica perdeu o efeito.

Maria escolheu seu vestido e saíram para tomar um sorvete. Sentadinhos lado a lado, começaram a experimentar o sorvete um do outro, com inúmeras brincadeiras de “opa, caiu um pingo aqui”. E naquela tarde, o assunto casamento, tanto falado por suas famílias, começou a soar mais palatável para João. Eram saudáveis, bonitos, conheciam o que pensavam só de olharem pra cara um do outro e ainda por cima, eram amigos! O que poderia dar errado?

E assim, João começou a olhar Maria de outro jeito e Maria começou a gostar desse olhar diferente.

E na cidade bonita, choveu naquela manhã e Maria foi pega de surpresa. João estava em uma entrevista e por isso não fazia companhia a Maria. Ela estava lá… sozinha, em uma chuva que caia em cântaros, sem saber o que fazer. Debaixo do coberto que estava, também estava um outro homem. Nem bonito nem feio, nem bem arrumado, nem mal arrumado. Maria limitou-se a dar uma leve olhada, mais por educação do que por vontade. Aquelas olhadas como quem diz “bom dia”, sem esperar resposta. E o homem ao lado apenas a segurou pelas mãos e saiu no meio daquela chuva. Maria estranhou aquela situação, mas toda a imprevisibilidade a seduzia. E ela foi atrás. O homem ia puxando Maria e correndo, os dois na rua iam pulando poças e a chuva parecendo aumentar mais. E quando iam atravessar uma enxurrada, o homem pegou Maria no colo e não a deixou que enfrentasse aquele aguaceiro. E depois tirou a camisa que vestia e enxugou Maria. E escorreu a água dos seus cabelos com as mãos. E a abraçou quando ela sentiu frio. E a apertou quando se sentiu desamparada.

Muito anos se passaram e hoje o homem da chuva está casado com Maria. Moram em outra cidade, não tão bonita quanto a de Maria e toda vez que chove ele a abraça, a aperta e a carrega no colo.

João? Soube que ele ficou louco. Alguns até diziam que falava sozinho, mas ele jura que era com a “fada madrinha”… O amigo do irmão do primo do vizinho de João, jura que ele ficou louco com o que a fada disse:

“Um segundo de atitude, mata cem anos de indecisão”.

 

 

Beijokas e que vocês achem quem as carregue no colo quando a chuva cair.

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6 Comments

  1. Bianca says

    “Um segundo de atitude mata cem anos de indecisão”

    Essa frase provavelmente vai ficar pulsando na minha cabeça… até eu tomar uma atitude.

    Perfeito, imprevisível e delicioso!

  2. Dona Oncinha says

    Rubico, que coisa linda de texto! Apaixonante, verdadeiro e cheio de poesia… Lindo, lindo 🙂

  3. @AninhaRuiz says

    Adorei a frase e sua forma de escrever, como sempre… mas confesso não concordar com o contexto.

    Já vi João que beijou Maria, não foi correspondido e se arrependeu…

    Já vi Maria que beijou João, percebeu que era bom mas, que a amizade era melhor e… já era tarde. Ela não existia mais.

    Existem casos e casos…

    Fly Away

  4. Rubens Gualdieri says

    É isso mesmo Aninha, em cada Joões e em cada Marias a gente vê uma faceta dos relacionamentos. Esse, eu preferi deixá-lo a ver navios, já que ele tinha a mulher, a oportunidade e a vontade.

  5. Carol F says

    Own :’)

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